9. ARTES E ESPETCULOS 25.7.12

1. TELEVISO   SOMBRA DAS RAPARIGAS EM FLOR
2. LIVROS  UM HOMEM A SER EXPLICADO
3. LIVROS  PONTO DE VISTA
4. LIVROS  A JOVEM MORTE
5. MSICA  SERESTA E CONCERTO
6. VEJA RECOMENDA
7. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
8. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  232 BOMBAS ATMICAS

1. TELEVISO   SOMBRA DAS RAPARIGAS EM FLOR
As protagonistas de Girls so jovens s voltas com as dores do crescimento na Nova York em crise.  um retrato geracional mais honesto e realista que o do antecessor Sex and the City.
MARCELO MARTHE

     Hannah Horvath (Lena Dunham) queria ser Carrie Bradshaw. Assim como a personagem de Sarah Jessica Parker em Sex and the City, exibida entre 1998 e 2004, a herona da srie Girls (que estreia no pas nesta segunda-feira, no canal pago HBO) busca o sucesso como escritora em Nova York. Mas morrem a as semelhanas entre ambas. Hannah tem 20 e poucos anos, enquanto Carrie j havia virado os 30 (e terminaria a srie s portas dos 40). Com 7 quilos a mais do que gostaria, ela no tem o corpinho esguio da antecessora. A distncia que a separa do sucesso profissional da escritora retratada em Sex and the City, ento,  drstica. Interiorana que divide uma residncia modesta com uma amiga na cidade, Hannah aceita trabalhar como estagiria sem salrio em uma editora, na iluso de que isso poder ser o trampolim para seu vago projeto de uma carreira literria. E ela est longe de achar um tigro como Mr. Big, o eterno amante de Carrie. Hannah conta to somente com os prstimos de Adam (Adam Driver), um bobalho interessado apenas em aliviar as inesgotveis pulses erticas nas curvas portentosas da moa. Adam comete grosserias inominveis, como dar tapinhas na barriga da namorada e sugerir que ela emagrea. O contraste com a vida de glamour de Carrie e sua trupe (veja o quadro na pgina seguinte) se elucida de vez quando Hannah  informada pelos pais de que sua mesada ser cortada. Ela tenta argumentar, suplicante: Por favor, me deem mais tempo. Tenho boas razes para crer que serei a voz de minha gerao.
     A afirmao expe quanto h de pattico na paradoxal mistura de pretenso oca com ausncia de ambio na protagonista. A mesma conjuno infeliz  compartilhada por suas amigas: a bonitinha mas nervosa Marnie (Allison Williams), a estouvada Jessa (Jemima Kirke) e a virgem neurtica Shoshanna (Zosia Mamet, filha do dramaturgo e cineasta David Mamet). Retrato impiedoso e acurado de uma parcela expressiva das mulheres jovens de hoje, Girls revela-se, afinal, um seriado mais honesto  e, em que pese a imaturidade das personagens, adulto  que a infantilizada viso sobre as balzaquianas da virada dos anos 2000 oferecida por Sex and the City. Impressiona verificar nos crditos que a criadora, produtora, diretora e atriz principal de Girls esteja no olho do mesmo furaco etrio. Aos 26 anos, Lena Dunham despontou como idealizadora e estrela de vdeos amadores e sries para a internet. Em 2010, fez sua estreia como diretora de longa-metragem com Tiny Furniture (moblia minscula), outro retrato da chamada gerao Y, como se rotula o pessoal que nasceu entre o incio dos anos 80 e meados dos 90. O zeitgeist tem seu peso na diferena colossal entre o mundo de Hannah e o de Carrie. Assim como as suas contrapartes do mundo real, as protagonistas de Girls tm  frente um futuro dificultado e apequenado pela recesso econmica (levantamentos recentes mostram que um quarto dos jovens americanos entre 18 e 34 anos teve de voltar para a casa dos pais, o que l  considerado humilhao suprema: e a situao anda to feia que mais de 40% dos recm-formados em cursos universitrios que conseguiram emprego esto em postos que no requerem esse tipo de instruo  viraram garonetes, valetes e assemelhados). Mas, apesar de terem menos idade e dinheiro, elas revelam mais potencial para evoluir rumo  maturidade plena do que as Barbies tardias de Sex.
     A passagem para a vida adulta, porm,  assolada por ansiedades neurticas, todas de grande efeito cmico. A obsesso de Marnie por se relacionar com algum que preencha suas expectativas narcisistas joga a jovem nos braos (bem, no exatamente nos braos) de um roqueiro de estilo coxinha, que compartilha com ela o gosto por certo brinquedo de alcova, enquanto Shoshanna  to fixada em sua virgindade que repele qualquer pretendente disposto a inici-la. As cenas de sexo so uma espcie de resumo geracional: premidas pela urgncia de afirmar para os outros e para si mesmas que possuem, sim, uma vida afetiva, as personagens se jogam na cama de forma afoita  e frustrante.
     O talento de Lena Dunham se comprova no modo como ela equilibra o humor cido com um olhar generoso sobre suas meninas  em particular, sobre a personagem que ela mesma interpreta. Na Nova York anticlimtica de Girls, Hannah vai, aos trancos, virando uma mulher mais interessante do que a perussima Carrie Bradshaw jamais foi. Lena Dunham j foi chamada de Woody Allen de saias. E tem chances de ser, de fato, a voz de sua gerao.

MULHERZINHAS VERSUS MENINONAS
Enquanto a infantilidade dava o tom das personagens maduras de Sex and the City, exibida entre 1998 e 2004, sua sucessora Girls investe numa abordagem desencantada  e mais honesta  da gerao feminina na casa dos 20 anos.

O MOMENTO
Sex and the City: Na virada dos anos 2000, os Estados Unidos viviam a euforia pr-estouro da bolha do setor imobilirio. As quatro amigas entre 30 e 40 anos eram a imagem da afluncia econmica desmiolada: belas e bem vestidas, s circulavam pelas altas-rodas e deslumbravam-se com roupas e sapatos de grife.
Girls: Hannah (Lena Dunham) e suas amigas  todas na faixa dos 20 anos e nem sempre prottipos de beleza ou de elegncia  vo morar em Nova York na iluso de levar uma vida de glamour como a das balzaquianas de Sex and the City. Mas, com a crise econmica, tm de enfrentar a transio para a vida adulta na pindaba.

A CARREIRA
Sex and the City: Lana um olhar edulcorado sobre a vida profissional das mulheres. O sucesso  dado a elas de barato, ainda que s falem e pensem futilidades: a herona Carrie Sradshaw (Sarah Jessica Parker)  uma escritora badalada, Samantha (Kim Cattrall) atua como uma poderosa relaes-pblicas, Miranda (Cynthia Nixon)  uma advogada bem-sucedida e Charlotte (Kristin Davis) dirige uma galeria de arte
Girls: A realizao profissional  um sonho fugidio. Enquanto engatinha na carreira de escritora, Hannah arranja empregos como o de estagiria no remunerada numa editora e entra em pnico quando os pais cortam sua mesada. As colegas no se saem melhor: Marnie (Allison Williams)  recepcionista de uma galeria e Jessa (Jemima Kirke) se vira como bab.

O AMOR
Sex and the City: Do romantismo boboca de Charlotte  sexualidade liberadssima de Samantha, passando pelas idas e vindas na relao entre Carrie e seu amado Mr. Big, o que se extraa da srie era uma viso regressiva do comportamento feminino. Embora fossem modernetes na aparncia, no fundo elas dependiam da aprovao dos homens para se autoafirmar
Girls: Na nsia de encontrarem o prazer e de preencherem necessidades afetivas, as meninas vo com tanta sede ao pote que o sexo acaba sendo mecnico e equivocado. A srie capta com ironia, alis, quanto o sexo entre seres humanos normais  como a gordinha Hannah e seu namorado  pode ser anticlimtico. Ou mesmo insosso: as amigas Marnie e Jessa j se beijaram, sem nenhum fiapo de desejo, s para fugir do assdio de um coroa.


2. LIVROS  UM HOMEM A SER EXPLICADO
E explicar Joo Baptista Figueiredo, o ltimo e o mais relutante dos generais a ocupar o poder,  o que Sad Farhat, que conviveu estreitamente com o presidente no Planalto, se pe a fazer em Tempo de Gangorra.
AUGUSTO NUNES

     Esses, pelo menos, no saram daqui dizendo as coisas diferentemente do que conversamos, comentou com um assessor o general Joo Baptista de Oliveira Figueiredo, chefe do Servio Nacional de Informaes do governo Ernesto Geisel, no fim da tarde de 31 de janeiro de 1978. Esses eram Guilherme Figueiredo e Sad Farhat. E as coisas que saram dizendo foram as respostas dadas pela dupla s perguntas dos jornalistas interessados em saber o que haviam conversado por mais de uma hora o militar j escolhido para encerrar o ciclo dos generais iniciado em 1963, o escritor e teatrlogo que acumulava o posto de irmo mais velho do futuro presidente e o risonho acriano que suspendera as atividades de empresrio e jornalista para dirigir a Embratur. O resgate do episdio  um dos momentos mais saborosos e reveladores de Tempo de Gangorra (Editora Tag&Line; 472 pginas; 45 reais), em que Sad Farhat, como informa o subttulo, apresenta uma viso do processo poltico-militar no Brasil de 1978 a 1980.
     O confronto entre o que ouviram os jornalistas e o que escutaram as paredes do gabinete no 4 andar do Palcio do Planalto sugere que, se gostou da lealdade dos visitantes, Figueiredo gostou mais ainda de como as coisas foram ditas e, sobretudo, do que os visitantes deixaram de dizer. A imprensa ficou sem saber, por exemplo, que Guilherme, ento funcionrio da Embratur, s invocou a necessidade de tratar de questes ligadas ao turismo para conseguir incluir na agenda a audincia, que em princpio duraria quinze minutos, em que apresentou Farhat ao irmo. Eles combinaram que Farhat tentaria, com a exposio de ideias e conceitos inseparveis do liberalismo clssico, ajudar a pavimentar o caminho da abertura poltica que seria percorrido pelo quinto (e ltimo) presidente do regime militar. A conversa a trs invadiu sem cautelas assuntos perigosos demais para frequentar sem disfarces entrevistas coletivas.
     Farhat confirmou que havia sugerido ao general alguns retoques na imagem. Mas omitiu o comentrio de Figueiredo quando o aconselhou a abandonar as meias verdes que terminavam no meio da canela: Qualquer dia, vocs vo querer que eu ande por a de collant. No noticirio do dia seguinte, graas  habilidade de um diplomata vocacional, clarins soaram como flautas, bumbo virou marimba e a batucada ficou parecida com um minueto. Reinterpretado por Farhat, Figueiredo pareceu bem melhor que na partitura original. O futuro presidente encontrara seu mais perfeito tradutor, mas Farhat soube disso s no segundo encontro, em 8 de junho de 1978, quando foi convidado a juntar-se  equipe do candidato. Primeiro como assessor polivalente, depois como porta-voz do presidente eleito, enfim como ministro da Comunicao Social do chefe de governo, Farhat conviveu intensamente, durante dois anos e meio, com o homem que cumpriu o juramento de fazer deste pas uma democracia.
     A devoluo do poder aos civis ocorreu graas  teimosia de Figueiredo, garante Farhat. A declarada simpatia pelo personagem s vezes induz o autor a enxergar no desbocado oficial da Cavalaria um audaz cavaleiro andante. O olhar  amistoso, mas sempre honesto. O livro comprova que s um turro incurvel poderia completar o trabalho de desmonte iniciado por Geisel, outro teimoso de nascena. Os dois enfrentaram zonas de turbulncia forjadas pela involuntria parceria entre ultraconservadores fardados incapazes de admitir a agonia do regime e oposicionistas sem pacincia para avaliar o tamanho do perigo a um palmo do nariz. A anistia de 1979, por exemplo, descontentou a esquerda e aulou o nimo beligerante da linha dura. E,  exceo de Tancredo Neves, revela Farhat, ningum aceitou apertar a mo estendida por Figueiredo num dos primeiros discursos como herdeiro do trono.
     Pena que Farhat no tenha detalhado as ameaas annimas de que foi vtima, nem identificado claramente os liberticidas que seguiram em ao at a restaurao da democracia. Mas os fatos que narra confirmam que, efetivamente, ele viu o bastante para perceber quanto estivemos arriscados, mais de uma vez, a tudo perder. Farhat diz que lhe coube verbalizar a vocao democrtica do presidente e, sempre que encontrava caminho aberto, aprofundar razes, reduzir a escrito seu pensamento poltico, muitas vezes inexpresso. Fez muito mais do que isso. E foi muito alm da repaginao que trocou Joo Baptista de Oliveira Figueiredo por Joo Figueiredo, demitiu os pesadssimos culos e, claro, mudou tanto a cor quanto o comprimento das meias.
     Graas  insistncia de Farhat, o oficial do Exrcito que chefiara em silncio o Gabinete Militar de Emilio Mdici e o SNI de Ernesto Geisel comeou a conversar com jornalistas  e o pas descobriu que o general calado camuflava um presidente que falava at demais. Recorrendo a complicadas acrobacias semnticas, Farhat frequentemente teve de minimizar, traduzir ou revogar declaraes que consolidaram o estilo de algum que se definia como rude e franco. No foi fcil explicar por que o presidente preferia cheiro de cavalo a cheiro de povo. Ou por que daria um tiro na cabea se tivesse de sobreviver ganhando salrio mnimo. Ou, ainda, por que Figueiredo, depois de prometer a ressurreio da democracia num pico pronunciamento redigido por Farhat, brindou com a advertncia famosa o jornalista que lhe perguntara o que faria se algum se opusesse ao que havia prometido: Eu prendo e arrebento.
     Somados os governos aos quais serviu e o que chefiou durante seis anos, ningum ficou mais tempo no Palcio do Planalto do que Figueiredo. Nunca foi feliz. Aceitou a contragosto a indicao para a Presidncia, que qualificou sinceramente de misso irrecusvel. Para no repassar a faixa presidencial a Jos Sarney, que considerava um traidor, deixou o palcio pela porta dos fundos. Longe do poder, enfurnou-se num apartamento no Rio de onde saa apenas para os fins de semana no stio em Petrpolis ou para caminhadas solitrias no calado do Leblon. Quando percebia que algum o reconhecera, evitava a interceptao com o mesmo drible: Sou parecido com quem voc est pensando, mas no sou ele. At morrer, em 1999, perseguiu o desejo manifestado na entrevista concedida a Alexandre Garcia semanas antes de encerrar o mandato: Quero que me esqueam. Sad Farhat preferiu esquecer o pedido, ouvir o apelo da histria e lembrar o presidente que conheceu. O retrato produzido pelo livro ajuda a iluminar o comeo da ltima etapa da viagem para longe das trevas.


3. LIVROS  PONTO DE VISTA
Em ensaio sobre sua formao como escritor, Cristovo Tezza tenta delinear a natureza da prosa de fico, que estaria antes no narrador do que naquilo que se narra.

     Livro que amealhou os prmios Jabuti e Portugal Telecom, entre outros, O Filho Eterno, publicado em 2007, tinha como tema a relao de um pai com o filho que tem sndrome de Down. O autor, o catarinense Cristovo Tezza, 60 anos, tem de fato um filho com Down. Quase todos os episdios do livro so decalcados de sua biografia. No entanto, Tezza classificou a obra como um romance, uma pea de fico. Em O Esplio da Prosa (Record; 224 pginas: 34,90 reais), que chega agora s livrarias, novamente temos um vasto recorrido biogrfico. Para reconstituir sua formao como escritor (o subttulo do livro  uma autobiografia literria), Tezza relembra a infncia em Lages e, depois da morte do pai, em Curitiba, conta de seu primeiro emprego, como datilgrafo, e fala de seus anos libertrios em uma comunidade meio riponga de atores de teatro em Antonina, no litoral do Paran. Mas no, diz o autor, este j no  um romance, mas um ensaio. Em que ele difere de O Filho Eterno, se afinal a matria-prima factual  a mesma  a vida de Cristovo Tezza? Eis a o corolrio da reflexo do autor sobre literatura: um escritor cria um romance no quando narra uma histria ou retrata um personagem, mas quando cria um ponto de vista. O nascimento da literatura  o nascimento de um narrador, diz Tezza. Entenda-se: um narrador cuja voz no esteja colada ao autor, como acontece em O Esprito da Prosa, mas, ao contrrio, se destaque dele, como faz a terceira pessoa que relata os eventos de O Filho Eterno.
     Vai a em cima uma boa dose de simplificao sobre o argumento do livro, que, desenvolvido com vagar e sutileza, se ampara na obra do crtico russo Mikhail Bakhtin (1895-1975), tema da tese de doutorado que Tezza defendeu na USP. O esprito da prosa referido no ttulo define-se, no esquema de Bakhtin, em oposio  poesia, cuja linguagem  mais depurada, pessoal, do que a pluralidade de vozes e registros que se encontram em romances e contos. Percebe-se, pelo arcabouo terico, que este ser um livro de interesse mais restrito do que os romances de Tezza. Embora no se encontre aqui o jargo incolor que tantas vezes atravanca ensaios e teses de letras, O Esprito da Prosa  um trabalho que talvez seja mais bem apreciado por quem tem alguma corrida na rea da teoria literria. E, apesar do tom desassombrado, elegante e sereno do ensasta, h aqui matria com potencial para inflamar algumas igrejinhas acadmicas  por exemplo, a defesa que Tezza faz da prosa realista em oposio aos truques metaficcionais do ps-modernismo, ou uma digresso breve mas acurada sobre as vozes domesticadas na narrativa potica de Guimares Rosa.
     O prazer deste livro, porm, no est somente na especulao terica. Tezza, o ensasta,  ainda um grande narrador: so muito saborosas, por exemplo, as reminiscncias do tempo em que viveu em uma comunidade alternativa, com todas as iluses utpicas prprias dos anos 60 e 70 (iluses que, diz o autor, o salvaram de se engajar na miragem mais nefasta do radicalismo comunista, popular naqueles anos de ditadura). Para se construir como escritor, Tezza teve de, aos poucos, desmontar as fantasias mais caras  sua gerao. Uma luta rdua para, afinal, abandonar clichs coletivos e encontrar seu prprio, intransfervel ponto de vista.
JERNIMO TEIXEIRA


4. LIVROS  A JOVEM MORTE
O sucesso de um romance adolescente cujo casal de heris enfrenta uma realidade incontornvel: o cncer terminal.

     Aos 13 anos, Hazel Grace acaba de passar por uma transio delicada para a adolescncia: teve sua primeira menstruao. E eis que, apenas trs meses depois, vem o diagnstico devastador  um cncer de tireoide em estgio avanado e sem chance de remisso, segundo os mdicos. Hazel converte-se, nas prprias palavras, em uma morta-viva. Uma metstase, no ano seguinte, atinge os pulmes, condenando-a a arrastar, para onde quer que v, um cilindro de oxignio. Debilitada e, sobretudo, deprimida, Hazel  obrigada pela me a frequentar um grupo de apoio a adolescentes na mesma situao. L, conhece Augustus Waters, que se destacava como jogador de basquete em sua escola  at ter uma perna amputada por causa de um osteossarcoma. Esse primeiro contato no s muda o esprito de Hazel como transforma o tom de A Culpa  das Estrelas (traduo de Renata Pettengill; Intrnseca; 288 pginas; 29,90 reais). A melancolia das primeiras  pginas d lugar a um entusiasmo avassalador pela vida. Lanado nos Estados Unidos no incio deste ano, o livro de John Green vendeu 150.000 exemplares no primeiro ms e, at agora, j soma mais de 400.000, alm de se ter tornado uma espcie de evento cultural espontneo na maneira como galvanizou seu pblico-alvo.
     Formado em lngua inglesa e estudos religiosos por uma faculdade de Ohio, John Green, de 34 anos,  o novo fenmeno do segmento young adult (jovens adultos), hoje um dos grandes esteios do mercado editorial. Seu romance destaca-se no gnero pelo realismo do argumento, que no tem elementos sobrenaturais, como na srie Crepsculo, nem conjura um mundo apocalptico, como faz a trilogia Jogos Vorazes. Green  eficiente no marketing pela internet: criou um popularssimo canal de vdeos no YouTube, com mais de 250 milhes de acessos. Por esse meio, ele j levantou mais de 100.000 dlares para causas de caridade  e, claro, ajudou a impulsionar A Culpa  das Estrelas. O sucesso do livro, porm, baseia-se sobretudo em suas qualidades intrnsecas. Se o tema  na aparncia tenebroso, Green teve a sensibilidade de torn-lo atraente, graas a uma narrativa bem construda e destituda de sentimentalismo.
     Considerando-se as diferenas de seus personagens em relao  imagem consagrada do adolescente cheio de vitalidade hormonal e sade, Green mostra certa ousadia no modo como trata de temas fulcrais para essa fase da vida. A cena em que Hazel e Augustus tm sua primeira relao sexual  breve mas marcante, graas aos detalhes bem-humorados que a pontuam. Hazel fica constrangida por no ter combinado as cores da calcinha e do suti, e sente uma curiosa compulso para tocar no cotoco da perna amputada do companheiro. O enredo pode parecer deprimente, e Hazel  que narra a histria em primeira pessoa  de certo modo confirma que  assim mesmo. A depresso no  o efeito colateral do cncer. A depresso  o efeito colateral da morte, diz ela. A melancolia, porm, se desvanece diante desse encontro to intenso de dois adolescentes que descobrem que  mais fcil encarar o fim iminente quando no se est mais sozinho nos instantes que o antecedem. 
BRUNO MEIER


5. MSICA  SERESTA E CONCERTO
Instrumento central da msica popular brasileira, o violo j foi at reprimido com cadeia, mas consolidou uma bela tradio erudita no pas.
SRGIO MARTINS

     O major Vidigal encaminhou ao juiz um cidado acusado de fazer serenatas  e recomendou que se examinasse a ponta de seus dedos: os calos demonstrariam que se tratava de um vulgar violonista. O personagem de Memrias de um Sargento de Milcias, de Manuel Antnio de Almeida, representa bem o preconceito e a represso que cercearam os cultores do violo durante grande parte do sculo XIX. Este era o instrumento dos malandros, dos criminosos. H relatos de pessoas que foram realmente presas por ter calos nas mos, diz Gilson Antunes, msico e professor de violo da Universidade Federal da Paraba. O instrumento foi redimido, ao longo do sculo XX, sobretudo pela msica popular. Mas sua presena nas salas de concerto brasileiras  substancial. Composto em 1929, Doce Estudos para Violo, de Heitor Villa-Lobos, est entre as obras eruditas fundamentais do instrumento. Hoje h um time de solistas consagrados que se dedicam ao violo erudito, como Turbio Santos e Fbio Zanon, alm de duplas como os irmos Assad. No ms passado, a Orquestra Sinfnica do Estado de So Paulo (Osesp) estreou o Concerto para Dois Violes e Orquestra, de Paulo Bellinati, executado pelo ascendente Brasil Guitar Duo. Ainda
que a apresentao tenha sofrido crticas pela orquestrao deficiente,  louvvel que um dos maiores grupos sinfnicos do pas d destaque ao instrumento em sua programao anual.
     Os antecessores do violo  alades, violas e vihuelas  chegaram ao Brasil j nos primrdios da colonizao, no sculo XVI, trazidos pelos jesutas. Desde o incio, portanto, instrumentos de corda tangidos pela mo, e no pelo arco, aclimataram-se no Brasil, sofrendo transmutaes que originariam a viola caipira. O violo com a configurao que se conhece hoje ter surgido na Espanha, difundindo-se no Brasil a partir do sculo XVIII. J no sculo seguinte houve esforos para introduzi-lo nos sales mais chiques (veja breve cronologia abaixo), mas sua plena aceitao nas salas de concerto data do sculo XX. Professores como o uruguaio Isaas Svio, na primeira metade do sculo passado, e bem mais tarde Henrique Pinto, introduziram o instrumento nos conservatrios, com tcnicas de ensino inovadoras. Henrique Pinto era to dedicado que chegava a lixar minhas unhas para melhorar a minha sonoridade, lembra Marcus Toscano, violonista de 27 anos que, no ano passado, bateu 66 concorrentes na disputa de duas vagas para a tradicional Royal Academy of Music de Londres.
     Alm de ter uma slida tradio de solistas, o Brasil conta com os dois principais duos de violo do sculo XX: o Abreu, formado por Srgio e Eduardo Abreu, que atuou de 1968 a 1975, e o ainda atuante Assad, dos irmos Srgio e Odair  que nesta semana participaro de um festival de msica em So Joo da Boa Vista, no interior de So Paulo. Alm do repertrio estritamente erudito, com peas de Villa-Lobos ou obras adaptadas de Bach, o duo Assad levou Wagner Tiso, Egberto Gismonti e Hermeto Pascoal para as salas de concerto. O argentino Astor Piazzolla (1921-1992) chegou a compor uma pea para eles, nos anos 80. Os Assad foram uma influncia decisiva para duplas mais jovens, como o duo Siqueira Lima e o Brasil Guitar Duo. Este, formado pelo ex-roqueiro Douglas Lora e por Joo Luiz, um estudante de trompete que se rendeu ao choro e ao samba, tambm se equilibra entre o erudito e o popular. Nos prximos meses, deve lanar um disco intitulado Zanzibar, com obras de Edu Lobo. O choro no  to diferente de uma cano de Bach. Tem um contraponto natural, diz Joo Luiz. Fbio Zanon, solista brasileiro com slida carreira internacional, identifica elementos de pera na seresta brasileira. Dilermando Reis toca pera no violo. Tem um qu de Pietro Mascagni, professa, referindo-se ao compositor da pera Cavalleria Rusticana. Talvez mais do que qualquer outro instrumento, o violo, hoje livre do preconceito policial dos vidigais, transita com tranquilidade da roda de samba para o palco de orquestra. A tentativa de apagar totalmente os limites entre os dois mundos seria populismo barato  mas o que importa para os violonistas srios  a qualidade. Perto do que se toca nas rdios hoje, samba no violo tem o mesmo peso de um Mozart, sentencia Zanon.

SEIS CORDAS
MOMENTOS HISTRICOS DO VIOLO ERUDTO NO BRASIL
1549 - A viola europeia  trazida ao Brasil Colnia pelos jesutas. Esse instrumento  o antepassado tanto da viola caipira quanto do violo, ambos surgidos no sculo XVIII.
1868 - Clementino Lisboa, engenheiro e msico diletante, faz o primeiro recital de violo solo no Brasil. No Clube Mozart, frequentado pela elite carioca, ele apresenta um repertrio constitudo por canes prprias e adaptaes de peas do americano Gottschalk para violo.
1916 - Os recitais de Augustin Barrios e Amrico Jacomino, o Canhoto, despem o violo da fama de instrumento malandro.
1929 - Heitor Villa-Lobos conclui os Doze Estudos para Violo. Considerada a maior obra para o instrumento no sculo XX, ela expandiu as possibilidades do violo.
1947 - O uruguaio Isaas Svio introduz o violo no Conservatrio Dramtico e Musical de So Paulo, instituio que mais tarde formaria violonistas como Marco Pereira e Paulo Bellinati.
1951 - Radams Gnatalli, o compositor erudito brasileiro que mais escreveu para violo, conclui os Concertinos 1 e 2 para Violo e Orquestra. Dedicado ao violonista Garoto, o Concertino Nmero 2 estreou no ano seguinte, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, tendo o prprio Garoto como solista e Eleazar de Carvalho na regncia.


6. VEJA RECOMENDA
DVD
OS INOCENTES (THE INNOCENTS, ESTADOS UNIDOS/INGLATERRA, 1961. CLASSICLINE)
 A crtica americana de cinema Pauline Kael chamava este de o mais elegante dos filmes de assombrao. Um elogio e tanto vindo da sempre aguda Pauline  mas h muito mais do que apenas sustos e arrepios na histria de horror gtico da governanta solteirona (Deborah Kerr) que vai cuidar de duas crianas rfs (Martin Stephens e Pamela Franklin) em uma senhorial manso no campo, na Inglaterra vitoriana. Alm da estirpe da fonte original (a novela A Volta do Parafuso, de Henry James), h o roteiro assinado por Truman Capote, a sombria fotografia em preto e branco de Freddie Francis e a msica de Georges Auric  uma cano de ninar diabolicamente adorvel. Trata-se de um primor de insinuao de perverses, violncia e abusos. Estariam mesmo os pequenos possudos pelos espritos malignos da ex-bab corrompida e do criado devasso, mortos em circunstncias misteriosas? Ou tudo no passaria de um delrio produzido pela imaginao de uma mulher reprimida e histrica? A interpretao contida, porm alucinada, de Deborah e a sutileza cruel do diretor Jack Clayton ajudam a deixar a atmosfera ainda mais apavorante.

LIVROS
SAGRADA FAMLIA, DE ZUENIR VENTURA (ALFAGUARA; 227 PGINAS; 36,90 REAIS)
 No Brasil de 1942, uma mulher de 37 anos era tida como de idade avanada. Se fosse viva, ento, o peso dos anos era redobrado. E ai daquela que parecesse mais jovem. No s provocava mal-estar, como corria o risco de ser recriminada pelo capricho da natureza. Esse era o caso de tia Nonoca, ainda atraente e vistosa, apesar das duas filhas adolescentes e do comportamento irrepreensvel. Isto , at seu sobrinho de 9 anos descobrir que os encontros frequentes dela com o farmacutico iam alm das plulas. Ao iniciar seu novo romance com esse episdio de inocente indiscrio infantil, Zuenir Ventura estabelece o tom nostlgico e satrico da crnica de famlia  passada numa fictcia cidade da serra fluminense , da II Guerra aos anos 90. Impossvel no lembrar de Nelson Rodrigues diante da moralidade pequeno-burguesa, dos desejos reprimidos e da revelao de um segredo adormecido por dcadas. O autor no s assume a influncia do mestre, como d  narrativa o charme das antigas novelas de rdio.

COMER, TREINAR, DORMIR, DE SAMIRA LAYAUN (PRUMO; 224 PGINAS; 29,90 REAIS)
 A paulistana Samira Layaun  mdica e adora correr. Comer, Treinar, Dormir encontra-se no cruzamento dessas duas qualificaes: o conhecimento da profissional aliado ao entusiasmo da esportista. Trata-se de um manual sobre a manuteno da sade, ideal para guiar o leigo em meio  profuso de recomendaes e interdies que cercam hoje o bem-estar pessoal. So 21 captulos breves, que vo direto ao ponto, tratando de distrbios como depresso, diabetes e dores nas costas ou de temas como colesterol, lcool e sono. Samira no perde tempo com tecnicalidades, mas apresenta dados persuasivos para conduzir o leitor a mudanas de atitude. Para enfatizar a necessidade de cortar o acar, por exemplo, ela lista mais de oitenta problemas  de acne a alguns tipos de cncer  que seu consumo pode ocasionar. Tambm ilustra suas recomendaes citando famosos que cuidam da forma fsica. Aps observar que o uso frequente de salto alto pode trazer uma srie de problemas para a postura, Samira lembra que a cantora Carla Bruni, ex-primeira-dama da Frana, sempre se mostrou elegante com sapatos baixos.

DISCO
THE IDLER WHEEL IS WISER THAN THE DRIVER OF THE SCREW AND WHIPPING CHORDS WILL SERVE VOU MORE THAN ROPES WILL EVER DO, FIONA APPLE (SONY MUSIC)
 Em 2005, a cantora Fiona Apple passou por uma situao constrangedora junto  gravadora Sony Music. A companhia decretou que o disco que ela acabara de completar no era suficientemente comercial  e contratou um produtor para aumentar seu apelo radiofnico (o que pouco ajudou nas vendagens). Abalada, a cantora passou anos sem gravar e aguardou a troca de comando na Sony para voltar  carga com um novo trabalho. The Idler Wheel  o retorno de Fiona ao controle total. Isso significa canes despidas de arranjos suntuosos (na maior parte, eles se resumem  voz e ao piano de Fiona e s intervenes do percussionista Charley Drayton) e um repertrio que pode soar difcil  primeira audio, mas vai ao encontro de um pblico que sentia falta de canes menos banais. Fiona possui voz marcante e uma interpretao vigorosa, e suas melodias tm classe. Ela no amacia nem quando cria uma cano de amor: Jonathan, dedicada ao escritor Jonathan Ames,  marcada por um piano e vocal dissonantes.

TELEVISO
VEEP (ESTREIA NESTA SEGUNDA-FEIRA, 23, S 22H35, NA HBO)
 Os vice-presidentes americanos (mesmo os que se esforam para ser atuantes) tm fama de ser no muito mais que figuras ornamentais na estrutura de poder da Casa Branca  essenciais para garantir a melhor aliana na hora da eleio, suprfluos nos quatro anos seguintes. Como descrever, ento, a vice-presidente Selina Meyer (Julia Louis-Dreyfus)? Para comear, como o mais sem noo de todos os indivduos a jamais ocupar o cargo: a ex-senadora Selina s domina, e mal, uma nica pauta  talheres sustentveis feitos de amido de milho. Sua ignorncia e sua aptido para falar a coisa errada na hora errada no tm rival. E sua equipe  de uma incompetncia enternecedora: to pssimos so os profissionais que cercam Selina que eles nem sequer tm ideia de que so ruins, exceo feita  sofrida assessora Amy (Anna Chlumsky, que na outra encarnao foi a menininha de Meu Primeiro Amor). Os dilogos do criador Armando Iannucci, um especialista no gnero poltico-cmico, so impagveis. Mas o show  mesmo de Julia Louis-Dreyfus, que, como a desastrada VP, invariavelmente tira o melhor de cada fala e cada cena.


7. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. A Escolha  Nicholas Sparks. NOVO CONCEITO
2. A Guerra dos Tronos  George R. R. Martin. LEYA BRASIL
3. O Casamento  Nicholas Sparks. ARQUEIRO
4. Um Homem de Sorte  Nicholas Sparks. NOVO CONCEITO 
5. O Filho de Netuno  Rick Riordan. INTRNSECA 
6. Jogos Vorazes  Suzanne Collins. ROCCO 
7. O Festim dos Corvos  George R.R. Martin. LEYA BRASIL 
8. O Melhor de Mim  Nicholas Sparks. ARQUEIRO 
9. Branca de Neve e o caador  Lily Blake, Evan Daugherty, John Lee Hancock e Hossein Amini. NOVO CONCEITO
10. O Prisioneiro do Cu  Carlos Ruiz Zafn. SUMA DE LETRAS

NO FICO
1. Uma Breve Histria do Cristianismo  Geoffrey Blainey. FUNDAMENTO
2. Para Sempre  Kim e Krickitt Carpenter. NOVO CONCEITO 
3. Guia Politicamente Incorreto da Filosofia  Luiz Felipe Pond. LEYA BRASIL
4. Guia Politicamente Incorreto da Histria do Brasil  Leandro Narloch. LEYA BRASIL 
5. 30 Minutos e Pronto  Jamie Oliver. GLOBO 
6. 1808  Laurentino Gomes. PLANETA
7. 1822  Laurentino Gomes. NOVA FRONTEIRA
8. Getlio 1882-1930  Lira Neto. COMPANHIA DAS LETRAS 
9. Pulmo de Ao  Eliana Zagui. BELALETRA
10. Mentes Ansiosas  Ana Beatriz Barbosa Silva. FONTANAR 

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Agapinho  gape para Crianas  Padre Marcelo Rossi. GLOBO
2. gape  Padre Marcelo Rossi. GLOBO 
3. Nietzsche para Estressados  Allan Percy. SEXTANTE 
4. A fascinante Construo do Eu  Augusto Cury. ACADEMIA DE INTELIGNCIA.
5. O Poder dos Quietos  Susan Cain. AGIR 
6. O Monge e o Executivo  James Hunter. SEXTANTE 
7.  Tudo To Simples  Danuza Leo. AGIR 
8. A Parisiense  Ines de la Fressange. INTRSECA 
9. O X da Questo  Eike Batista. PRIMEIRA PESSOA 
10. A Arte da Guerra  Sun Tzu. VRIAS EDITORAS


8. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  232 BOMBAS ATMICAS
     Pesquisa divulgada na semana passada pela ONG Ao Educativa, em colaborao com o Instituto Paulo Montenegro, ligado ao Ibope, indica que 27% dos brasileiros so analfabetos funcionais. Isso significa que, se quatro brasileiros, cada um com um manual de sobrevivncia na mo, tm cinco minutos para l-lo, num barco que est afundando, um deles morrer. A pesquisa toma por base os 130 milhes de brasileiros com idade acima de 15 anos. Caso todos eles se encontrassem na mesma situao, num superbarco, 32,5 milhes morreriam. O cataclismo  de propores csmicas. Seriam necessrias 232 bombas como as que caram sobre Hiroshima, onde morreram 140.000 pessoas, para chegar a esse total.
     O leitor, que  esperto, e tem a sorte de desde a adolescncia ter escapado do clube dos analfabetos funcionais, sabe que o superbarco da imagem acima  o barco Brasil, e o morrer no  morrer de verdade, mas ser desclassificado para trabalhos que exijam o domnio de textos e de clculos com mdia complexidade. O resultado continua sendo catastrfico: 32,5 milhes de brasileiros esto de sada desclassificados. O barco Brasil carrega quase dois Chiles de despreparados para tarefas acima das rudimentares. 
     A ONG Ao Educativa e o Instituto Paulo Montenegro comearam em 2001 a pesquisar o que chamam de Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf). De l at agora, o ndice de analfabetismo puro e simples caiu pela metade no pas  de 12% para 6%. O de analfabetismo funcional tambm caiu  de 39% para 27%. Nem por isso os ndices so satisfatrios e, em alguns detalhes, a pesquisa revela um quadro ainda mais cruel. Afora o analfabetismo puro e simples, o Inaf considera trs nveis de alfabetizao: a rudimentar, a bsica e a plena. A rudimentar  a que permite ler um anncio e operar com pequenas quantias; a bsica, a que possibilita ler textos mais longos e vencer operaes como as que envolvem propores: a plena, a que contempla os nveis mais altos de anlise de textos e de operaes matemticas.
     Da soma dos alfabetizados bsicos e plenos resulta o total dos alfabetizados funcionais. Eles so 73% hoje, contra 61% em 2001. Mas, considerados s os alfabetizados plenos, o total no se moveu: eram 26% em 2001 e continuam 26%. Tambm  desanimadora a constatao de que, mesmo entre os portadores de diploma universitrio, h carncias na alfabetizao. Trinta e oito por cento deles no alcanam o nvel de alfabetizao plena. Tal constatao pe por terra o argumento de que o mar de faculdades mambembes espalhado pelo pas cumpriria ao menos o papel de suprir as deficincias escolares anteriores do aluno.
     A presidente Dilma Rousseff disse outro dia, rodeada pelas crianas que participavam da Conferncia Nacional dos Direitos da Criana e do Adolescente, que no  pelo PIB que um pas deve ser julgado, mas pela capacidade de proteger o seu presente e o seu futuro, que so suas crianas e seus adolescentes. Foi criticada por vrios motivos: porque sem um PIB robusto no h como cuidar bem das crianas; porque suas palavras embutiam a falcia de que o pas cuida bem das crianas; porque fez a declarao no mesmo dia em que o Banco Central divulgava mais uma das hoje habituais ms notcias quanto  sade da economia.
     As crticas eram justas. Se o PIB anda mal, vamos mudar de assunto  eis o convite com que acenava a presidente. Mas o fato de ela invocar o PIB quando falava de crianas tem a virtude de ressaltar a desproporo da ateno dispensada no pas a um e outro. Os respiros do PIB so acompanhados milimetricamente. Uma notcia negativa, como o recuo de 0,02% em maio com relao a abril, como anunciava o Banco Central naquele dia, provoca a mobilizao do ministro da Fazenda. J as ms notcias na educao, que em ltima anlise  o que mais importa, quando se fala em crianas e adolescentes, no produzem o mesmo efeito. No h sinal de que o ministro da Educao tenha se abalado com a divulgao da pesquisa sobre o analfabetismo. Alis, onde est o ministro da Educao? No s o atual, mas seus antecessores, a no ser quando so candidatos a alguma coisa, onde se enfiam? Os ministros da Fazenda, o atual como os antecessores, esto sempre em todas.
     Para fazer justia, o problema no  s o ministro da Educao. Tambm no  s o governo. A sociedade mostra interesse igualmente apenas relativo pela catstrofe das 232 bombas de Hiroshima sobre a educao brasileira. As geraes perdidas vo se acumulando umas sobre as outras, num barco Brasil que mal e mal se equilibra, com tanta gente despreparada para decifrar o manual de sobrevivncia.

